Sobre ser um estilista negro brasileiro em ascenção e foco na carreira - Entrevista com Felipe Sousa

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A frente de uma das mais promissoras marcas de streetwear do Brasil, Felipe Augusto de Sousa Silva (nome bem brasileiro, como ele mesmo brinca) é um estilista brasileiro e empresário mineiro, que não só teve sabedoria para construir uma marca cheia de personalidade, como passa adiante e estimula outros empreendedores a estruturar um modelo de negócios de sucesso.

“A gente multiplica nosso conhecimento mais dividindo do que retendo. Eu quero contribuir para o mercado, porque se o mercado amadurece, a marca prospera”, explica o CEO da KACE, que reforça o posicionamento da sua marca de forma que as pessoas possam se ver em posição de poder. “Eu quero que as pessoas queiram mais, se gostem mais e vejam que podem chegar bem alto”, completa.

A timidez latente ao foco que veio com o amadurecimento

Cria de Sabará, cidade histórica localizada há pouco mais de 20km de Belo Horizonte, o estilista negro vem de uma família que sempre deu valor ao trabalho e com ele não poderia ser diferente.

estilista_brasileiro_KACEFoto: Felipe Sousa - Estilista e Fundador da Marca 

 

Perguntado sobre quem é o Felipe Sousa, não hesitou em dizer que é um cara focado, mas que era bem tímido e, ao amadurecer, descobriu que relaciona sempre o seu propósito de vida com o trabalho. “A partir que as coisas foram acontecendo [profissionalmente] eu fui descobrindo esse novo Felipe. Atualmente, eu medito todos os dias, amadureci minha personalidade, fiquei muito mais focado, desacelerei, e me entendi como pessoa”, disse.

A experiência do jovem empresário mineiro é invejável. Bem cedo Felipe já tinha consciência de que queria construir o seu próprio castelo e não desfocou do seu objetivo. E uma ideia que começou despretensiosamente com um trabalho do curso técnico de informática, quando tinha apenas 16 anos, se tornou hoje uma potência da moda urbana.

“Estudar na escola técnica foi o divisor de águas da minha vida. Quando eu fui pra lá [escola], pra mim era um outro mundo na forma como eu percebia as coisas. A cabeça explodiu [igual o emoji] e mudou meus horizontes”, contou.

Os primeiros passos para a criação da KACE

O processo para a criação do empreendimento começou ainda na escola técnica. “Rolou no colégio um projeto de informática e web design para criar uma empresa fictícia, estruturar o site e eu criei uma loja de roupas chamada ‘Pulse - Skate Shop’ e esse foi o primeiro passo.”, diz.

Logo após sair do colégio, Felipe foi trabalhar com outras coisas que não estavam relacionadas a moda e ao comércio. Passado um curto período no mercado de trabalho, percebeu que não fazia mais sentido e decidiu largar de vez.

Em 2014, com a vontade de empreender falando mais alto, e a aptidão para o trabalho na web, desenvolveu o site da sua primeira loja, a Ômega, e usou todo o limite do cartão de crédito como capital inicial. “Eu tinha um limite de 2 mil reais e comprei roupas importadas para revender”, contou o empresário.

Depois disso, a evolução foi gradual, porém acelerada. Um ano após  iniciar sua loja online, estudou bastante e lançou sua primeira marca autoral, a Kaos que mais tarde viria a se tornar KACE. A loja na garagem de casa, foi lançada em abril de 2015 e em outubro de 2016, inaugurou seu espaço físico no centro de Sabará. Em junho de 2019 levou o ponto para a Savassi, em Belo Horizonte. “Viemos para o metro quadrado mais caro de BH”, brinca.

Quando Felipe fez a transição da marca, de Kaos para KACE, estava passando por um momento de redescobrimento como pessoa, dos seus objetivos, do que ele realmente queria para a sua vida profissional, de como ele deveria se posicionar como marca. “A KACE carrega a audácia dos meus projetos anteriores,  porém é uma marca mais inteligente, madura e elegante. Quando eu lancei a KACE foi da forma que ela deveria ser para que o mercado e as pessoas a percebessem de forma positiva.”, explica.

Ele ainda vislumbra grandes feitos com a KACE – um acrônimo de Keep Advancing and Conquer Everything, que traduzido para o bom português fica “continue avançando e conquiste tudo”. A frase é como se fosse um mantra para o designer e acaba incentivando muitos outros jovens a nunca desistirem dos seus objetivos.

Estilista Negro - O desafio

O estilista explica como sua origem influencia diretamente na construção da sua personalidade. “Tenho como origem familiar uma questão de um certo vazio de identidade, querendo ou não, as coisas vão se construindo conforme a gente avança, porque toda família periférica ou negra no Brasil tem um corte na história. A gente não tem certeza da nossa identidade, de saber de onde a gente veio e quem são nossos ancestrais”, reflete.

Por conta disso, Felipe afirma que se posicionar como homem preto veio do início da vida adulta e também com o amadurecimento. "Uma coisa é você saber e sentir que você é. Outra coisa é você se posicionar dessa forma. Para a construção de um pensamento descolonial é preciso muito estudo e reflexão”, afirma.

Sobre trabalhar com moda, especificamente, ele diz que de forma geral, investir nesse ramo no Brasil é complexo pra todo mundo. “Independente se a pessoa tem grana ou é pobre, preto, branco... as taxas tributárias, os encargos trabalhistas, são pesados pra todos. Eu, como um cara preto, percebo é que tenho que trabalhar muito mais pra atingir metade do resultado de outras pessoas. Porque a verdade é que hoje o que a minha marca faz em faturamento, pouquíssimas marcas independentes no Brasil fazem. Isso sem sombra de dúvidas. E a gente tem que lutar muito mais para mídia especializada perceber e respeitar a gente. Mas enxergar isso será inevitável, que a KACE vai se tornar uma das maiores marcas do país. Os números não mentem. Vejo isso em relação à postura do mercado”, relata o estilista negro.

Quer conhecer um pouco mais o trabalho da KACE? Acesse www.kacewear.com.br e veja mais.

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